Pular para o conteúdo principal

Meu siso está encostado no nervo: hoje é possível prever melhor o risco da cirurgia?

 Quando uma radiografia panorâmica mostra as raízes de um siso inferior aparentemente sobrepostas ao canal mandibular, é comum ouvir a frase: “seu siso está encostado no nervo”.

Isso costuma gerar duas reações: medo de retirar o dente ou a ideia de que basta fazer uma tomografia para tornar a cirurgia completamente segura.

Nenhuma das duas interpretações é correta.

Qual nervo está próximo do siso?

Dentro da mandíbula existe um canal por onde passa o nervo alveolar inferior, responsável por grande parte da sensibilidade do lábio inferior e do queixo.

A posição desse canal varia de uma pessoa para outra. Da mesma forma, raízes de terceiros molares apresentam formatos e relações anatômicas muito diferentes.

Quando existe contato íntimo entre essas estruturas, a remoção do dente pode apresentar maior risco de alteração de sensibilidade — chamada parestesia.

Essa alteração pode se manifestar como dormência, formigamento ou mudança na percepção do toque.

Na maioria dos casos em que ocorre, existe recuperação ao longo do tempo, mas alterações persistentes são possíveis e devem fazer parte da conversa antes da cirurgia.

O que mudou com a tomografia?

A radiografia panorâmica continua sendo um excelente exame inicial.

Ela mostra a posição geral do dente e pode apresentar sinais que sugerem proximidade com o canal mandibular.

Quando o caso é considerado de maior risco, a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) permite estudar a região em três dimensões.

Em vez de observar apenas duas estruturas sobrepostas numa imagem plana, podemos avaliar se o canal passa por vestibular, lingual, abaixo ou em relação mais íntima às raízes.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 identificou diferentes características tomográficas associadas ao risco de lesão do nervo alveolar inferior, reforçando que não basta saber se o canal está “perto”: formato, posição e preservação da cortical do canal também podem ter importância.

Entretanto, existe um detalhe científico importante.

Fazer tomografia não elimina, por si só, o risco de lesão nervosa.

Estudos que compararam pacientes avaliados apenas por radiografia panorâmica com aqueles submetidos também à CBCT não demonstraram que realizar tomografia rotineiramente reduza automaticamente a frequência de lesões nervosas. Seu principal valor está em fornecer informações adicionais em casos selecionados, ajudando na avaliação de risco e no planejamento.

E quando o risco parece elevado?

Nesse momento, a pergunta deixa de ser apenas:

“Posso tirar o siso?”

E passa a ser:

“Qual é a estratégia mais adequada para retirar — ou tratar — este siso?”

Além da remoção convencional, alguns terceiros molares de alto risco podem ser candidatos à coronectomia, técnica na qual a coroa é removida enquanto as raízes permanecem propositalmente no osso para reduzir a manipulação próxima ao nervo.

Essa decisão depende de critérios clínicos e radiográficos específicos.

Por que dois sisos aparentemente iguais podem ter riscos diferentes?

Porque a cirurgia não é determinada apenas pela posição “deitada” ou “em pé” do dente.

Entram no planejamento:

• formato e número das raízes;
• profundidade da inclusão;
• posição do canal mandibular;
• presença ou ausência da cortical óssea entre raiz e canal;
• idade do paciente;
• condição do segundo molar;
• existência de infecção ou outra alteração associada.

É justamente essa combinação de fatores que permite transformar uma imagem que assusta em um risco que pode ser melhor compreendido.

Se sua panorâmica mostrou um siso muito próximo do canal mandibular, uma avaliação individual dos exames pode ajudar a entender qual é a relação anatômica real com o nervo, se existe indicação de tomografia e quais estratégias cirúrgicas podem ser consideradas.

[Avaliar meu exame]


Precisa avaliar o seu caso?

As informações do Cirurgia Buco-Maxilo sem Medo têm finalidade educativa e ajudam a compreender diagnósticos, exames e possibilidades de tratamento, mas não substituem uma avaliação individual.

Se você recebeu indicação de cirurgia, possui radiografias ou tomografias, procura uma segunda opinião ou deseja esclarecer uma situação relacionada à Cirurgia Buco-Maxilo-Facial, é possível solicitar uma avaliação especializada em Natal/RN.

Durante a consulta, o objetivo inicial é compreender o seu caso, analisar os exames disponíveis e discutir as possibilidades de tratamento quando houver indicação.

[Consulta e avaliação]

Postagens mais visitadas deste blog

Cirurgia ortognática dói? O que realmente acontece antes, durante e depois

  A ideia de operar os maxilares costuma gerar uma pergunta imediata: “vou sentir muita dor?”. Curiosamente, para muitos pacientes, a dor não é o principal desconforto da cirurgia ortognática . Antes da cirurgia, existe uma etapa importante de planejamento. Exames de imagem, análise facial, avaliação da mordida e planejamento ortodôntico ajudam a definir os movimentos necessários dos maxilares. Em muitos casos, recursos digitais permitem estudar previamente as alterações que serão realizadas. Durante o procedimento, o paciente está sob anestesia geral e não sente a cirurgia. Os ossos da maxila e/ou mandíbula são reposicionados de acordo com o planejamento e estabilizados geralmente com pequenas placas e parafusos. E depois? Nos primeiros dias, são esperados inchaço, dificuldade para mastigar, sensação de pressão na face e limitação para abrir a boca. Alterações temporárias de sensibilidade também podem ocorrer, principalmente em cirurgias envolvendo a mandíbula. A dor existe, mas c...

Cirurgia Buco-Maxilo-Facial SEM medo: Por que criei este espaço para você

Se você já sentiu aquele aperto no peito ao saber que precisaria de uma intervenção no rosto ou na boca, saiba que você não está sozinho. A ansiedade diante do desconhecido é uma resposta natural do nosso corpo, mas ela não precisa travar a busca pela sua saúde e bem-estar. Decidi fundar o Cirurgia Buco-Maxilo-facial SEM medo para mudar essa realidade. No meu dia a dia, dividindo o tempo entre o atendimento aos pacientes e as salas de aula universitárias, percebo que o receio quase sempre vem da falta de respostas simples. De diagnósticos complexos a termos difíceis, a internet costuma assustar mais do que orientar. A proposta deste espaço é ser o seu ponto de apoio. Aqui, vou explicar como funcionam as técnicas mais modernas, o que esperar de procedimentos como a extração de sisos, o tratamento de DTM ou a cirurgia ortognática, e como ter um pós-operatório muito mais leve e confortável. A cirurgia buco-maxilo-facial evoluiu enormemente em precisão e segurança. O objetivo principal é ...

Meu siso está encostado no nervo. É perigoso tirar?

 “Doutor, meu siso está encostado no nervo. É perigoso fazer a cirurgia?” Essa é uma dúvida muito comum — e compreensível. Nos sisos inferiores, as raízes podem estar próximas do canal mandibular, região por onde passa o nervo alveolar inferior, responsável pela sensibilidade do lábio inferior e do queixo. Essa proximidade não significa, por si só, que o siso não possa ser removido. Significa que o caso merece uma avaliação cuidadosa. A radiografia panorâmica costuma ser o primeiro exame utilizado. Quando ela mostra uma relação muito próxima entre as raízes e o canal do nervo, a tomografia computadorizada de feixe cônico pode ser indicada. Ela permite avaliar essa relação em três dimensões e ajuda no planejamento da cirurgia. Existe risco de alteração de sensibilidade? Sim. A parestesia pode ocorrer após a remoção de terceiros molares inferiores, especialmente quando existe contato íntimo com o nervo. Na maioria das situações em que ocorre, a alteração é temporária, mas lesões per...